Cuidado com as pessoas que foram feridas, elas já sabem como sobreviver.

Cuidado com as pessoas que já foram feridas, elas sabem muito bem como sobreviver. Elas têm a pele marcada por mil batalhas e o coração protegido por uma armadura enferrujada, mas resistente. Elas já não admitem mentiras nem egoísmo, sabem como se defender das palavras que machucam e cuidam de si mesmas, mesmo nas situações mais complicadas.

Estes tipos de encruzilhadas da vida tão conhecidas podem ser originadas por diversos fatores. Poderíamos falar de eventos traumáticos, mas na verdade, se há uma dimensão que se estende como um vírus implacável, é a dor emocional. A vida dói, e dói de muitas formas. De facto, às vezes não é preciso receber um impacto pontual e devastador para experimentar o início de uma ferida profunda, aquela que ninguém vê.

A vida dói, e estende as suas garras agressivas de muitas formas diferentes e através de vários mecanismos. Tanto é que são muitas as pessoas que caminham pela rua com as suas feridas abertas, incapazes de as reconhecer, mas a sofrer os seus efeitos através da impotência, do mau humor, da amargura e do cansaço extremo.

No entanto, quem foi capaz de as identificar, curar e de aprender com elas está feito agora de um material diferente. Lá no fundo do seu coração essas pessoas dispõem de um componente quase mágico: a resiliência.

A resiliência nos torna especiais: nos transforma em heróis

Os eventos traumáticos, sejam aqueles incorridos como resultado de um acidente, uma perda, um abuso ou da destruição sofrida por causa de um relacionamento afetivo, têm a capacidade de nos transformar. Essa mudança pode ser realizada de duas formas: vetando por um lado a nossa capacidade de continuar aproveitando a vida ou, por outro lado, incentivando-nos a reinventar-nos para sermos muito mais fortes após o ocorrido, nos permitindo segundas oportunidades maravilhosas.

É um paradoxo estranho. A dor emocional é como olhar todos os dias para uma Medusa, essa criatura mitológica com serpentes na cabeça capaz de nos transformar em pedra. No entanto, se tivermos um escudo, veremos o monstro através de seu reflexo para poder vencê-lo, para poder destruí-lo.

Precisamos de ferramentas, proteções psicológicas adequadas que propiciem uma transformação que nos transforme em heróis de nossas próprias batalhas.

Os heróis e a química cerebral

Algo que os psicólogos e os neuro-biólogos sabem é que nem todo mundo consegue dar esse passo. Nem todo mundo chega a ativar esse mecanismo de sobrevivência instalado em nosso cérebro, que conhecemos como resiliência. Hans Selye, bioquímico canadense do início do século XX, demonstrou que a resiliência é, acima de tudo, uma adaptação a uma situação de estresse. O nosso sistema nervoso simpático precisa “calibrar-se”, recuperar a calma e o equilíbrio. Para isso, ele ordena que determinados hormonas encarreguem-se de recuperar essa homeostase.

Se o medo nos supera, ficamos bloqueados. Transformamo-nos em pedra. Muitas vezes, factores como a nossa herança genética fazem com que tenhamos uma maior ou menor disposição para sermos resilientes. Por sua vez, o facto de ter tido uma infância traumática também causa um determinado impacto na nossa química cerebral.

O stress tóxico interrompe o desenvolvimento normal do cérebro da criança, aumentando, assim, a sua vulnerabilidade emocional quando chega à idade adulta. No entanto, a boa notícia é que apesar de a resiliência ter bases neurológicas que nos determinam, os seus mecanismos podem ser treinados.

Porque os heróis não nascem, os verdadeiros heróis emergem nos momentos de adversidade.

Essa ferida ensinou-te a sobreviver

A palavra “trauma” significa literalmente “ferida”. Há um dano que não vemos, mas cujo impacto chega a todos os âmbitos de nossa existência. Richard Tedeschi, psicólogo da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e notável especialista neste tema, nos explica que quando uma pessoa está ferida por dentro, a primeira coisa que ela perde é a sua confiança no mundo.

Todo o seu sistema de crenças é derrubado e a sua confiança no futuro se desvanece por completo. Não há um presente, muito menos um amanhã. O trabalho de “reconstrução” é minucioso e complexo, não é como esperar que um osso quebrado se una, na verdade, é quase como ter a alma quebrada e colhê-la pedaço por pedaço para colocá-la de volta no lugar.

Por sua vez, o doutor Richard Tedeschi enfatiza um erro muito concreto que a sociedade em geral costuma cometer. Quando uma pessoa sofreu abusos na sua infância, quando um homem tem que enfrentar a perda da sua namorada devido a um acidente de trânsito ou quando uma mulher agredida finalmente deixa o agressor, é comum que a primeira coisa que muitos de nós sintamos é pena deles.

Além disso, há quem, sem dizer em voz alta, pense que“ninguém supera isso, devem estar destroçados por dentro, a sua vida acabou aí”.

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Pensar isso é um erro. Nunca devemos subestimar a quem foi ferido/a. A neuroplasticidade cerebral é infinita, o cérebro se reprograma e a resiliência nos reinventa, nos torna fortes e nos oferece novos escudos não só para enfrentar qualquer Medusa, mas para abrirmos caminhos em nós mesmos para encontrarmos novas felicidades.

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