Provavelmente não há polémica maior do que a educação de crianças. As opiniões são muito variadas, os pais geralmente ficam irritados com conselhos não solicitados e todos acham que está certo e que os outros é que são malucos.
Embora muitos estudos científicos sobre paternidade tenham sido feitos, não existe uma receita para ser um bom pai que funcione em todas as ocasiões. Resta reflectir sobre as dicas dos especialistas, e tomar a decisão que nos pareça mais acertada.
Uma das questões mais debatidas quanto à educação dos pequenos é: devemos ou não obrigá-los a serem carinhosos com os parentes e amigos?
Se não sabes como agir nessa situação, quem sabe a opinião de Katia Hetter, jornalista da CNN que cobre assuntos relacionados à paternidade, relacionamentos e viagens, possa ajudar.

Não somos donos dos nossos filhos
Katia tem uma filha de 7 anos. Em determinados momentos, ela abraça ou beija os seus pais e avós espontaneamente, mas, como todas as crianças, às vezes não quer fazer isso. “E eu não vou obrigá-la”, diz a jornalista.
Desde que tinha 3 anos, Katia deixou claro que gostaria que ela abraçasse seus avós, mas que não iria forçá-la.
A escritora não acha correcto fazer a sua filha tocar em alguém que ela escolhe não tocar. “Eu acho que seu corpo é realmente seu, não meu”, explica.
Não confundas a atitude de Katia com negligência parental: a mãe certifica-se de que a menina trata as pessoas com respeito e educação, apenas não a obriga a oferecer afeição física. “Quanto mais cedo ela aprender a ter posse de si mesma e responsabilidade pelo seu corpo, melhor para ela”, diz.

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Abuso [email protected]
Muitos casos de abuso [email protected] envolvem familiares, e as crianças podem interpretar “toques inapropriados” como algo que eles precisam deixar as pessoas fazerem.
Katia quer ensinar à sua filha de que não há problema em dizer não para um adulto, mesmo um aparentemente amigável. A criança é dona do seu próprio corpo e só vai demonstrar afecto quando quiser.

Quando nós forçamos as crianças a submeter-se a afeição indesejada a fim de não ofender um parente ou ferir os sentimentos de um amigo, nós ensinamos-lhes que os seus corpos realmente não pertencem a elas porque elas têm que deixar de lado seus próprios sentimentos para nos agradar”, explica Irene van der Zande, co-fundadora e directora executiva da Kidpower Teenpower Fullpower International, uma organização sem fins lucrativos especializada no ensino de segurança pessoal e prevenção da violência. “Isto leva a crianças abusadas [email protected], meninas adolescentes que se tornam [email protected] para que os outros ‘gostem delas’ e crianças que aturam assédio moral porque todos estão a ‘se divertir-se’”.

Protecção contra predadores

Ursula Wagner, clínica de saúde mental em Chicago, nos EUA, concorda com Katia e Irene. Ela crê que forçar as crianças a tocar as pessoas quando elas não querem as tornam vulneráveis a abusadores sexuais, a maioria dos quais são conhecidos.
Gostarias que a tua filha tivesse relações com o namorado simplesmente para fazê-lo feliz?
Enquanto alguns especialistas explicam que essa linha de pensamento é exactamente a mesma de obrigar seus pequenos a beijar ou abraçar a avó quando eles não querem, muitos pais não concordam.
Não é um crime forçar seus filhos a serem fisicamente carinhosos com um parente, mas vale a reflexão sobre o tipo de comportamento que você está obrigando as crianças a terem. De acordo com a autora Jennifer Lehr, que tem um blog sobre estilo parental, ordenar as crianças a beijar ou abraçar um adulto que eles não querem tocar lhes ensina a usar seu corpo para agradar alguém em posição de autoridade.
A mensagem que fica para a criança é que o estado emocional de outra pessoa é sua responsabilidade, e que ela deve sacrificar seus próprios sentimentos para satisfazer o desejo de amor ou afecto de outra pessoa”, opina Lehr.

Educação não é igual a afecto físico
Certamente, muitos pais devem estar reagindo de maneira bastante aborrecida a essas opiniões. Se não achas que obrigar o teu filho a beijar a avó seja a mesma coisa que ensiná-lo, numa idade jovem, a usar seu corpo para fazer os outros felizes, não tem problema – ninguém está a dizer que és um monstro.

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Mas, se concordas com essa posição, mas tens preocupações quanto à educação do teu filho, sabe que é possível ensiná-lo a ser cordial sem precisar de afecto físico.

Podes, por exemplo, ensiná-lo a dizer “por favor”, bem como pedir que ele ajude os parentes a colocar  a mesa ou limpando a mesa. Se tiveres que escolher entre obrigar o teu filho a agradecer ou dar um beijo, é muito melhor forçá-lo a dizer “obrigado”.

Ensinar os filhos a serem bem-criados é diferente do que tomar conta dos seus corpos. Podes fazê-los cumprimentar as pessoas, é só dar-lhes opções: eles podem fazer um oi com a mão, apertar a mão de alguém, abraçá-lo ou beijá-lo – a criança pode fazer o que preferir, mas tem que fazer algo. Desta forma, os teus filhos serão educados, mas também aprenderão que têm que fazer escolhas próprias– afinal, mesmo crianças têm personalidades diferentes e são seres humanos no seu próprio direito, e não propriedades de um outro ser humano.

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Afecto real
É difícil quando te vês numa reunião de família e os teus filhos não querem cumprimentar ninguém. Por isso, uma tática é conversar com eles antes de ver os parentes, explicando quem eles serão e por que é importante interagir com eles. Compreensão e diálogo é sempre melhor que uma ordem direta, vazia, que a criança pode interpretar de maneira diferente da que os pais imaginam.

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Eu espero estar ensinando a minha filha a cuidar de si mesma no futuro”, argumenta Katia. “Há benefícios em permitir que ela expresse afecto à sua maneira e em seu próprio cronograma. Quando ela afaga minha mãe no sofá, conversa feliz com ela sobre seus livros favoritos e outras coisas, o rosto de minha mãe acende. Ela reconhece que o amor de sua neta é real, e não forçado”. [CNN]

TEXTONatasha Romanzoti

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