A saudade de quem já morreu…

Quem sente sabe, a saudade é presença. Permanece. É o que fica quando a dor se vai, a revolta se vai. Não morre.

Saudade maior é de quem já se foi. Mesmo nos que nutrem a fé no reencontro, é visível a dor de ter que seguir longe de quem se queria por perto. A dor de perder quem nos é querido, pela astuta ação da morte deixa em todos nos a marca da saudade.

Quando a morte ocorre, experimentamos a forte dor e a sensação de termos perdido o chão, perdido as raízes e estarmos, então, soltos no mundo. A falta do outro bagunça e desestrutura. Sofremos muito e então vem o luto. O luto é um processo de adaptação após perdermos algo ou alguém que era importante para nós, ou seja, uma perda significativa. Quanto maior o vínculo afetivo, maior será o impacto. O luto é a incapacidade que temos de nos divertir, de estarmos felizes.

Por um tempo é como se funcionássemos no automático e só conseguimos nos ocupar das tarefas quotidianas e daquilo que chamamos de trabalho. Quanto mais repentina é a ação da morte, mais é exigido de nós. Muitos se vão aos poucos, vão adoecendo e partindo lentamente, dando-nos assim tempo de assimilar e digerir a difícil realidade. Na contramão, há situação nas quais somos pegos de surpresa pela partida repentina de quem estava ali ontem, jovem, cheio de vida. A morte exige muito de nós, exige muita coragem.

O que fazer então quando ela nos encontra e leva de nós quem amamos?

Em primeiro lugar devemos entender e aceitar que vamos sofrer e então tentar sofrer o mínimo de tempo possível. Quem sofre mais tempo não significa que vive um luto maior nem tampouco que a sua dor e/ou o seu afeto por quem se foi é maior. O sofrimento pelo sofrimento não tem nada de digno, nem de profundo ou saudável. O sofrer deve ser superado com resiliência (aquela capacidade de cair e se levantar o mais breve possível) e nunca alimentado. Superar a dor, superar o luto deve ser sempre o nosso objetivo, aprendendo sempre. A dor sempre nos ensina muito e ela é inevitável.

Talvez vocês concordem comigo em afirmar que a maior dor que o ser humano pode vivenciar é a dor da perda de um filho. Acredito que a maior injustiça, que o maior descompasso, que o maior equívoco da natureza é um filho partir antes dos pais, obrigando-os à suportar a dor de uma dilacerante ferida e a depois caminhar com uma cicatriz inescondível. Talvez então vocês estejam agora me perguntando como e onde conseguir motivação, força para superar algo tão penoso assim. Acredito que a ternura e a fé hão de ser ainda maior e que não há nada a fazer a não ser superar e seguir. Negar, agredir, deprimir-se, desistir…, nenhuma dessas alternativas funciona. O fim de tudo é sempre a aceitação e há vários caminhos para se chegar a ela.

Lembro-me de um depoimento bonito de uma paciente que, ao perder repentinamente a filha jovem em decorrência de um acidente de trânsito, um dia me disse:
-Ao ler A Cabana eu achei um caminho para seguir.

E assim, depois de um tempo ela conseguiu abandonar os psicotrópicos.
O caminho pode estar num livro, na fé, nas relações afetivas, na caridade ou em qualquer lugar. Ele existe e nós o chamamos de motivação. Cabe a cada um descobrir o que lhe motiva, o que lhe faz vivo e lhe dá força, combustível para seguir.

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A única pessoa que permanecerá conosco pelo resto das nossas vidas somos nós mesmos. Por isso nós, estudiosos do comportamento e das emoções humanas, insistimos tanto para que, cada um de nós, tenha uma ótima relação consigo mesmo. E importante que nos bastemos e que possamos nos carregar no colo, que possamos jogar no nosso próprio time, que nos amemos a ponto de cuidar de nós mesmos e das nossas feridas.

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