Todos têm os seus dias de cão. Abres os olhos e parece que o mundo escolheu-te para irritar. Logo o mundo, coitado, que não fez nada.
Era um dia desses. Ela acordou de uma forma que não estava bem para nada. Retrucou o “bom dia” com um grunhido de irritação e olhou para cima com a cara amarrada, como se o sol, todo brilhante, quente, reinando no céu, fosse o responsável por todas as suas mazelas.
Chegou à cozinha e a família já estava a toda. Cozinha pede conversa, não é? Ainda mais em família grande. Todos sempre têm algo para falar – e precisa anunciar mais alto que o parente do lado.
Da porta, ela pediu um minuto de silêncio. A família já achou que ia fazer alguma declaração importante. A avó já começou a orar, temendo o pior. (O que é o pior? Ninguém sabe, é qualquer coisa que a vó decide na hora que é pior).
Ela não falou nada. Sentou-se na mesa, fechou os olhos e respirou fundo. Uma, duas, três vezes. Abriu os olhos, desligou o telemóvel. Não fez mais nada, os parentes se entreolharam, confusos, e logo voltaram as suas atividades normais. A irmã fez um sinal de loucura, que ela viu, mas nem ligou.
Às vezes, a vida pede, não é? Um respiro. Só um minuto para não ouvirmos nada.
Silêncio é difícil de achar hoje em dia. Mesmo quando estamos quietos, estamos sempre a ouvir alguma coisa. Do fone de ouvido que já é parte da roupa ao zumbido constante das notificações no telemóvel. Gente a falar: do trânsito, da política, do futebol, do gasto de água e da chuva que não vem, do metrô lotado, da ciclovia (e da bicicleta que não sai da garagem há semanas).
Ela levantou-se de novo. Ninguém prestou atenção dessa vez. Pegou um frasco no armário, colocou a água para aquecer e ficou quietinha. Um sorriso surgiu nos lábios quando o aroma começou a subir.

E de repente, todos ficaram quieto de novo, só sentindo o cheirinho de café se espalhar pelo ar. A avó deixou a reza, a irmã, a implicância, a mãe baixou o jornal e parou de tentar convencer o filho mais velho a largar o socialismo.
Silêncio.
Por um minuto, todos ficaram absortos no aroma.
Ela pegou chávenas para todos e logo encheu uma só para ela. Respirou fundo antes de dar o primeiro gole, e pareceu que, dentro dela, o café desfez tudo que a irritava.

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O pai pediu o açúcar, o irmão, o adoçante. Logo, todos começaram a falar de novo. Mas estava tudo bem. Distraída com a sua bebida, ela olhou pela janela e achou o sol a coisa mais bonita que já tinha visto.
Disse Alexandre Dumas, “para todos os males, há dois remédios: o tempo e o silêncio”. E se mesmo isso não funcionar, não tem mau humor matinal que não se cure com uma boa chávena de café!