Um casal é feito de duas partes, a lutar constantemente para ser uma. O teu amor sempre veio acompanhado com resquício de abandono, mas agora eu não preciso mais fazer aquele estardalhaço sobre ti. Eu não precisei te matar das minhas lembranças, foste desaparecendo de mim por conta própria cada vez que me deixaste a chorar sozinha.

Chorei por tudo isso e pelo tudo que eu sabia que iria virar nada logo. Mas a única falência que mata é a dos órgãos, então pude sobreviver vendo o que nós tínhamos virando ruína.

Eu te pedi para me ouvir, subi em cima cadeira, segurei um megafone, usei fitas de LED enroladas pelo corpo, acenei, chamei pelo seu nome. Disseste que outro dia a gente conversava. Partes tuas foram desaparecendo desde então.

Tentei me convencer de que estava tudo bem, que só a tua presença me bastava. Era tudo coisa da minha cabeça. Talvez eu estivesse a exagerar, ninguém consegue dar tanta atenção a um outro ser humano. Mas ninguém é tão ocupado, não é? Quando percebi isso, outro pedaço teu virou fumaça.

Então, por que eu me sentia numa batalha de uma pessoa só? Perdi-te dentro de mim e tentei ganhar-te todos os dias. Antes mesmo de saber que eu nunca poderia ter alguém que nunca levantou uma bandeira por mim. Sempre foi tempo perdido e o pior é que mesmo que já soubesses, me deixaste continuar. Mais uma vez eu chorei, já quase não existias.

Prometi a mim mesma que não me daria por vencida enquanto não tivesse a certeza que fiz tudo para retomar os laços. Chamei-te, liguei-te, fiquei parada à tua porta, toquei a campainha, pedi abrigo no teu peito. Sem resposta. Eu te vi a virar história de cartão postal.

Então eu chorei.

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Derramei litros de sonhos de um futuro que nunca iria acontecer. Tem algo desolador em desistir sem nem antes provar uma demo. Chorei porque eu quis tanto e tive tão pouco. Foi tão promissor no começo, fizeste direitinho.

Soubeste prometer tão bem quanto soubeste não cumprir. Mas é grandioso se render, aceitar que o barco não vai navegar nem com a maior das correntezas. E que tudo bem ser assim. Eu chorei por ti. Tu morreste pouco a pouco. Não existes mais.

TEXTONajara Gomes (Adapatdo)

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